Electrificação do país abre caminho à agroindústria (Angola)

16 Março 2017
Author(s)
Osvaldo Gonçalves
Fotografia: Rogério Tuti | Edições Novembro
Fotografia: Rogério Tuti | Edições Novembro

O baixo índice de electrificaçãodo país, em particular no meio rural, é dos principais entraves à industrialização. A maior parte dos projectos esbarra na falta de energia eléctrica e a alta dos preços dos combustíveis e lubrificantes, sobrefacturados devido às dificuldades de acesso.

Como resultado, milhares de toneladas de produtos agrícolas perdem-se a cada colheita e grandes quantidades não chegam sequer a deixar os campos onde são colhidas.

Angola procura duplicar a taxa de electrificação até 2025 e o executivo angolano estabeleceu um conjunto de objectivos estratégicos para o sector eléctrico.O Ministério da Energia e Águas estima que a actual taxa de electrificação do país seja de 33 por cento, índice muito baixo para as pretensões do Governo e empresariado. O Executivo aposta assim forte no sector. A meta é chegar aos 60 por cento em 2025, isto é, 14 milhões de beneficiários.

O país explora apenas cinco por cento da potencialidade que dispõe em energia hídrica. Com base na Estratégia e Política de Segurança Energética, está a ser elaborado o projecto Angola Energia 2025, que inclui um levantamento exaustivo da evolução da procura, necessidade do aumento das capacidades de produção, transporte e transformação, interligações dos sistemas, incluindo o sistema Leste ao Norte, assim como o sistema Norte ao Centro e, a posteriori ao sistema Sul e o mapeamento dos recursos renováveis.

Está previsto um incremento da potência instalada de 2 GW para 9,9 GW em 2025, com um nível de redundância suficiente para garantir os anos mais secos. Espera-se que 3,2 GW sejam instalados com a participação do sector privado. A ponta máxima actual de 1,5 GW atingirá um pico de 7,2 GW nesse período, enquanto o consumo per capita actual no país deve subir de 450 KWh para 1450 KWh.



O reforço de Laúca



A barragem de Laúca, em Malanje, cuja albufeira começou a receber água no último sábado, 11 de Março, é parte desse projecto amplo, que visa interligar os sistemas energéticos do país e ligá-lo no futuro à rede regional. 

Com obra iniciada em 2012, num orçamento de cerca de cinco mil milhões de dólares, a barragem está projectada para produzir 2.070 megawatts de electricidade, repartidos por seis turbinas de 334 megawatts cada, em duas centrais.A central principal vai gerar 2.004 megawatts, enquanto a ecológica, com capacidade para gerar 67 megawatts, deve entrar em funcionamento em 2018.

O empreendimento hidroeléctrico de Laúca é a terceira Barragem em construção no leito do rio Cuanza, depois de Cambambe e Capanda. Com o Aproveitamento Hidroeléctrico concluído, a segunda central de Cambambe ampliada e a entrada da central do ciclo combinado do Soyo, mais de 20 milhões de lâmpadas de 100 watts são acesas do centro e sul de Angola.A meta é atingir cinco mil megawatts de produção de energia.



Meio rural



Entre 2010 e 2012, foram traçadas políticas para potenciar a electrificação rural e as novas energias renováveis. O país gere grandes projectos de infra-estruturas para aproveitar os recursos hídricos, gás natural, eólico e solar.

No quadro do Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), o país contemplou para o período 2013/2017 investimentos de cerca de 3,3 mil milhões de dólares para projectos destinados às energias renováveis e electrificação rural.

Um papel importante deve ser jogado pela componente do gás natural na produção de energia, como o do ciclo combinado do Soyo, e a exploração racional do potencial hidroeléctrico existente no país, estimado em cerca de 18 mil MW. Deste modo, o sector reduz de modo substancial os custos de produção de energia eléctrica com a diversificação da matriz energética.

Para as regiões rurais com baixa concentração demográfica, pretende-se investir em cerca de 130 projectos de energia solar voltados para necessidades específicas, como o funcionamento de escolas, centros de saúde, bombagem de água, iluminação e outros usos socialmente importantes.

Para colocar em prática esses projectos e garantir o acesso da população a este tipo de energia, seria necessário criar formas de incentivar os usuários, tendo em conta que esta faixa da população é aquela que do ponto de vista económico é a mais desfavorecida.

Para o Governo, isso pode fazer-se através de facilidades fiscais para os fornecedores de equipamentos, na aprovação e acompanhamento de um plano nacional de eletricficação rural com metas bem definidas, e financiamento.

Para executar o projecto Angola Energia 2025, são precisos investimentos na ordem dos 20 mil milhões de dólares (cerca de 200 mil milhões de kwanzas) no período entre 2017 e 2025. O investimento privado é fundamental para a concretização dos projectos por se tratar de somas muito altas. Só em linhas de transporte, dos actuais 2850 km, prevê-se um aumento para 15600 km até 2025 em linhas de 60 KV, 220 KV e 400 KV.



Pequenas hidroeléctricas



Além dos grandes empreendimentos, a malha energética do país deve contar com os pequenos empreendimentos hidroeléctricos locais, sobretudo, da inciativa dos fazendeiros. São conhecidos casos em que, além de garantirem o fornecimento de electricidade aos equipamentos fabris e comerciais e aldeamentos, empresários agrícolas assistem as autoridades locais no fornecimento de electricidade a vilas e povoações.

O objectivo do Governo é que essas iniciativas satisfaçam entre cinco e 10 por cento das necessidades de energia eléctrica no país até 2025.

O Instituto Regulador do Sector Eléctrico (IRSE) prevê que o Programa Nacional de Electrificação Rural garanta, até 2017, o acesso à energia eléctrica a 86 sedes municipais e 124 sedes comunais do país. 

O país pode quadruplicar a capacidade de produção dos actuais  2000 para 9500 megawatts até 2025, assim como construir mais de 2500 quilómetros de linhas e subestações na rede de transportes, estabelecendo interligações internacionais.



Caminho para agroindústria



O suporte energético é crucial para a economia rural, área do país mais afectada pela falta de electricidade, cujas características de habitabilidade, sobretudo, a desconcentração populacional, tornam os projectos no sector inviáveis do ponto de vista económico.

Por razões histórico-culturais e as gritantes falhas actuais do comércio rural no fornecimento de conteúdos básicos aos camponeses, os pedidos feitos são de muito pouca monta, como açúcar, sabão, petróleo iluminante e pilhas para os receptores de rádio. 

Estima-se que, dos 26.359.634 habitantes de Angola, 10,3 milhões vivem em zonas rurais, sendo, entretanto, responsáveis pela produção de perto de 90 por cento dos alimentos do país, embora a maioria provenha da agricultura de tipo familiar e de cooperativas e associações, a funcionarem à base de métodos arcaicos. Em Angola, os níveis de pobreza atingem os 58 por cento da população, três vezes mais alto que o das zonas urbanas, estimados em média em 19 por cento. Cerca de 72 por cento dessas pessoas são pobres.

Muito dependente na energia eléctrica é o agronegócio, que até agora tem dado um importante impulso para a redução das perdas no campo. O agronegócio é o conjunto de negócios relacionados à agricultura e pecuária. Actividade ampla,envolve segmentos anteriores e posteriores à produção agro-pecuária, seja em relação às pessoas físicas, seja no fornecimento de insumos, seja ainda na compra, transporte, acondicionamento e venda dos produtos agropecuários. 

A maior quota dos produtos do campo é hoje adquirida, transportada, manuseada e vendida ao consumidor final por comerciantes informais, na maioria dos casos sem dispor das mínimas condições para o acondicionamento e transporte dos mesmos.

A electricidade das zonas rurais abre também caminho para o surgimento e fixação nessas áreas da agroindústria, principal responsável pelo aproveitamento dos excedentes do campo. A agroindústria é o conjunto de actividades relacionadas à transformação de matérias-primas provenientes da agricultura, pecuária, aquicultura ou silvicultura.

O nível de transformação varia em função dos objectivos das empresas agroindustriais. Para cada uma dessas matérias-primas, a agroindústria é um segmento da cadeia, que vai desde o fornecimento de insumos agrícolas até ao consumidor. Este segmento apresenta certa originalidade em relação aos demais segmentos da indústria, pois as suas matérias-primas dependem da sazonabilidade, perecibilidade e heterogeneidade.